AMA A TUA PROFISSÃO *
 

    "Trata de considerar la abogacía de tal manera que el día en que tu hijo te pida consejo sobre su destino, consideres un honor para ti proponerle que se haga abogado". (Eduardo J. Couture, Los mandamientos del Abogado, Depalma, Buenos Aires, 1966, p. 55).

    Este é o décimo e último mandamento do repertório elaborado pelo imortal mestre do processo civil e notável Advogado uruguaio. Os comentários respectivos são introduzidos pelo pensamento acima transcrito e por uma parábola. Ela conta que certo dia um filho ficou impressionado vendo a sua mãe dedicada à tarefa de manufaturar uma cadeira. Eram tais os cuidados e a concentração dedicados à peça de artesanato que ele manifestou a sua admiração. E a mãe lhe disse: "O amor pelas coisas bem feitas deve nos acompanhar por toda a vida. As partes invisíveis das coisas devem ser produzidas com o mesmo zelo que as partes visíveis; as catedrais de França são as catedrais de França porque o amor com que foi produzido o ornamento externo é o mesmo amor com que se produziram as partes ocultas".

    E assim ocorre em todas as atividades humanas, observa Couture. O amor ao ofício eleva-o à hierarquia da arte. O amor, por si mesmo, transforma o trabalho em criação; a tenacidade em heroísmo; a idéia em dogma; a vida em poesia.

    Quando um Advogado chega ao ponto de aconselhar seu filho - no momento em que deve escolher o seu destino - que siga sua própria profissão é porque encontrou nela algo muito mais relevante que um simples ofício. Como diz muito bem o pranteado mestre Couture, "ofício ansiamos para nosotros mismos; pero para nuestro hijo deseamos, de ser possible, la gloria".

    O exercício da advocacia e de outras profissões ligadas ao Direito e à Justiça, não conduzem, necessariamente, a um caminho da glória. Mas pode - como em qualquer outra atividade humana - proporcionar momentos de grande satisfação funcional e até mesmo de enlevo espiritual.

    Há momentos de grandeza em nosso ofício que justificam o orgulho e o prazer de exercê-lo com dignidade e abnegação. A reparação de injustiças e o reconhecimento de direitos, além de atenderem exigências sociais, enobrecem o trabalho humano.

    Estava certo Voltaire (1694 - 1778), o imortal filósofo e publicista do Iluminismo, ao dizer: "O trabalho afasta de nós três grandes males: o tédio, o vício e a necessidade".

* artigo publicado no jornal "O Estado do Paraná", caderno "Direito e Justiça" de 19.05.2002.