ANTOLOGIA DE VERSOS JURÍDICOS *
Uma espécie de licença poética deve ser concedida aos profissionais do Direito e da Justiça durante o recesso forense. É o tempo para se desfrutar do lazer e da leitura em suas múltiplas possibilidades: na cidade, no campo, no mar, na montanha. E, também, no mundo maravilhoso da Arte e da Literatura em cujos universos infinitos navega o espírito humano.
É justamente nessa janela de abertura dos prazos e das petições que recebi a bem elaborada Antologia de Poesias Jurídicas, sob um sugestivo título: Lírica do Direito. São diversos poemas, geralmente em forma de sonetos, organizados por Miguel Matos e editados por Migalhas, a prestigiada revista eletrônica (www.migalhas.com.br). O seu balanço de 2006 registra números extraordinários: 242 informativos, 795 artigos publicados, 1.012 livros sorteados, 1.271 eventos divulgados, 4.018 matérias produzidas, 8.896 cartas veiculadas, 19.360 migalhas e 89.815 novos leitores.
A Lírica do Direito contém textos de variados matizes e autores de diversas origens funcionais: juristas, advogados, juízes, professores, médicos, jornalistas, promotores públicos, escritores e, obviamente, poetas.
De Miguel Reale (1910-2006), por exemplo, chegam estas quadras: “Com pés sangrando pelos tribunais/ olhos queimados com vigílias longas/ em busca da justiça sem delongas/ não me é possível ocultar meus ais. /Árduo labor, após tão duras lutas,/ não sei o que é a justiça com certeza,/ se vem da natureza/ para abrir as tenazes das disputas”. Do imortal Tobias Barreto (1839-1889), certamente defendendo algum acusado de assédio sexual: “Considerando que as flores/ existem para o nariz,/ e as mulheres para os homens,/na opinião do juiz;/ considerando que as moças,/ ariscas como a perdiz,/ devem ter seu perdigueiro,/ na opinião do juiz;/ considerando que a gente não pode viver feliz/sem fazer seu namorico,/ na opinião do juiz;/ amemos todos, amemos,/ é Cupido quem o diz;/ na opinião do juiz”.
Não poderia faltar, na boa seleção de temas e autores, a homenagem póstuma àquele que exerce a missão de distribuir justiça aos seres humanos. O professor de Direito Penal e ex-presidente do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, Adelmar Tavares da Silva Cavalcanti, simplesmente Adelmar Tavares (1888-1963) lembra o paradoxo de uma existência: “Com a velha capa negra, desbotada/ pelo tempo da dura profissão,/ vi-o buscar a última pousada,/ adormecido, e frio, em seu caixão./ Refletia na face fatigada/ quanto em vida guardou no coração, / da rude faina mal recompensada,/ das pedradas zurzidas sem razão. / Na comarca longínqua, ao desconforto,/ viu passarem legiões que o preteriram .../ a esse bom, a esse justo, e grande morto,/ que humildemente vai, como viveu,/ que deu Justiça a todos que pediram,/ e que aos seus tristes dias ninguém deu”.
Vale a pena ler. Ler e sentir o milagre da palavra.
* artigo publicado no jornal "O Estado do Paraná", caderno "Direito e Justiça" de 07.01.2007.