A Linguagem acessível para a boa informação
René Ariel Dotti
O oportuno guia da Ajuris para descomplicar
Já foi
dito com muita propriedade que "a informação é poder". A
máxima vale para as relações humanas em geral. Quando um
paciente vai ao médico para saber o diagnóstico após os exames
de laboratório e as radiografias, a boa informação técnica é
fundamental: para o doente e para o tratamento. Assim também
ocorre, com as devidas peculiaridades, quando o cliente visita
o advogado para saber o resultado da pesquisa feita no
processo de seu interesse.
Entre os cuidados que os profissionais devem ter nesses
diálogos, dois são fundamentais. O primeiro é a sinceridade na
exposição do problema e na indicação dos meios e métodos de
tratamento. Nesse aspecto, além da qualificação científica e
técnica da abordagem, é indispensável o uso da prudência ao
emitir prognóstico para não criar falsa ilusão acerca do
resultado pretendido pela parte. O segundo é a clareza na
linguagem. O que entenderia o paciente se o médico lhe
dissesse que ele é portador de um "transtorno depressivo
maior" e que o remédio a ser "ministrado" é indispensável para
os casos de "dor neuropática associada à neuropatia diabética
periférica?" O interlocutor certamente não compreenderá que
esse palavrório indica um medicamento antidepressivo. Sim, o
consulente está com depressão resultante do estresse da vida
atribulada e do trabalho excessivo. E o que pensar do cliente
ao ouvir do advogado que o mesmo vai entrar com um "agravo de
instrumento" e espera obter o "efeito suspensivo" para mudar a
decisão contrária? Não seria mais fácil e compreensivo se
dissesse que vai entrar com um recurso e espera que o Tribunal
modifique a decisão contrária do Juiz?
A crônica forense conta que certo magistrado, ao determinar a
prisão de um assaltante de Barra Velha (SC), ordenou:
"Encaminhe-se o acusado ao ergástulo público". Dias mais tarde
a decisão ainda não havia sido cumprida. Ninguém na delegacia
sabia onde ficava o tal "ergástulo". O vocábulo, que na Roma
antiga indicava o local onde se confinavam os escravos, está
nos dicionários como sinônimo de cárcere, prisão, cadeia.
A Associação dos Juízes do Rio Grande do Sul (Ajuris)
organizou um guia para desmistificar o emprego de certas
palavras e expressões usadas em processos e que dificultam ou
impossibilitam a sua compreensão. Os magistrados e os
funcionários do tribunal gaúcho foram estimulados a participar
de debates em escolas com pais e alunos. A idéia, encampada
pela Associação dos Magistrados Brasileiros(AMB), é uma reação
contra os vocábulos e discursos herméticos que trafegam em
muitos pedidos e julgamentos. "Cártula" (talão de cheque);
"cônjuge virago" (esposa); "cônjuge supérstite" (viúvo); "exordial
acusatória" (denúncia); "testigo" (testemunha); e "caderno
indiciário" (inquérito policial), são alguns dos inúmeros
exemplos.
* artigo publicado no jornal "O Estado do Paraná", caderno "Direito e Justiça" de 12.12.2008.