ALTINO PORTUGAL SOARES PEREIRA *

    Por onde começar? Talvez pela fermentação política dos anos 50, especialmente quando alguns chefes militares pretendiam impedir a posse de Juscelino Kubitschek de Oliveira e João Goulart, eleitos em 3 de outubro de 1955, para a presidência e vice-presidência da República. A resistência ao golpe, liderada pelo General Lott, e a posse (1956) foram eventos nacionais que repercutiram junto à mocidade acadêmica da Faculdade de Direito da Universidade Federal do Paraná. Era o tempo dos anos dourados. A minha turma (1954-1958) usufruía aquele cenário de liberdades públicas, direitos e garantias individuais. Havia, com plena liberdade de discurso e ação, três agremiações: Partido Acadêmico Progressista (PAP), Partido Acadêmico Renovador (PAR) e Partido Democrático Universitário (PDU). As assembléias do Centro Acadêmico Hugo Simas (CAHS) compunham um espetáculo a parte de vibração e entusiasmo principalmente com o debate sobre a nacionalização do petróleo.

    Altino Portugal Soares Pereira era o nosso professor de Direito Civil. Para uma imensa turma de quase cem alunos, irrequietos e com a exuberância ruidosa do grupo do querido João Régis Teixeira, era impressionante o silêncio durante as aulas. Sentado, falando pausadamente e tendo às mãos somente o Código Civil, o mestre Altino era ouvido das primeiras às últimas carteiras. Cleusa, a filha, lembra muito bem que ele mantinha a turma quieta somente com pequenas batidas da aliança na mesa. Calmo, educado, sensível.

    A cátedra, conquistada e mantida com louvor, dedicação e entusiasmo, era a segunda morada. A primeira foi o lar construído com dona Edilde e os filhos Cleusa, Ronald e Gilda.

    Em nossa colação de grau (1958) o Professor Altino foi o paraninfo. Alunos, parentes e amigos, todos ficaram sensibilizados com as demonstrações de afeição à turma, modéstia pessoal e ecumenismo. Ele freqüentou e participou de diferentes liturgias religiosas.

    Essa virtude de comunicação afetuosa e inteligente foi a sua marca espiritual ao lado do prestígio das obras jurídicas, do exercício da advocacia e das láureas universitárias. Inesquecível colaborador da OAB e seu conselheiro. Formador de gerações de profissionais do Direito. E mais, muito mais.

    “Ah! Professor... Que saudade.”

* artigo publicado no jornal "O Estado do Paraná", caderno "Direito e Justiça" de 22.01.2006.