A NOITE DE MAIOR COMEMORAÇÃO DA CRISTANDADE *
 

A distribuição de responsabilidades, emoções, lucros e prejuízos

    “Sentir primeiro, pensar depois. Perdoar primeiro, julgar depois.” (Mário Quintana)

    Nesta época do ano, quando os sentimentos de fraternidade, amor, solidariedade e esperança modelam um estado de espírito que envolve o mundo cristão e o breve recesso judiciário nos liberta da asfixia dos prazos e das petições, nada melhor que reverenciar o dia, ou melhor, a noite de Natal. Penso que a melhor leitura que se pode oferecer aos visitantes desta coluna vem dos pensamentos que traduzem a sensibilidade e a imaginação de poetas e escritores.

    E começo com o Natal de Vinícius de Moraes:

De repente o sol raiou

E o galo cocoricou

- Cristo nasceu! /

O boi, no campo perdido

Soltou um longo mugido:

- Aonde? Aonde? /

Com seu balido tremido

Ligeiro diz o cordeiro:

- Em Belém ! Em Belém! /

Eis senão quando, num zurro

Se houve a risada do burro:

- Foi sim que eu estava lá!/

E o papagaio que é gira

Pôs-se a falar: - É mentira! /

Os bichos de pena, em bando

Reclamaram protestando.

O pombal todo arrulhava:

- Cruz credo! Cruz credo!

- Mentira? Ora essa! /

- Cristo nasceu! canta o galo.

- Aonde? pergunta o boi.

- Num estábulo! o cavalo

Contente rincha onde foi.

Bale o cordeiro também:

- Em Belém - Me! Em Belém/

E os bichos todos pegaram

O papagaio caturra

E de raiva lhe aplicaram

Uma grandíssima surra./

    ••• Charlotte Carpenter: “Lembre-se, se o Natal não é achado em seu coração, você não o achará debaixo da árvore”; ••• Oren Arnold: “Sugestões de presente para o Natal: Para seu inimigo, perdão. Para um oponente, tolerância. Para um amigo, seu coração. Para um cliente, serviço. Para tudo, caridade. Para toda criança, um exemplo bom. Para você, respeito”;  ••• (Helena Kolody): “Concede-me, Senhor, a graça de ser boa, de ser o coração singelo que perdoa, a solícita mão que espalha, sem medidas, estrelas pela noite escura de outras vidas. E tira d’ alma alheia o espinho que magoa”; ••• Charles Dickens: “O Natal é um tempo de benevolência, perdão, generosidade e alegria. A única época que conheço, no calendário do ano, em que homens e mulheres parecem, de comum acordo, abrir livremente seus corações”.

    Mas também não faltam, por outro lado, citações bem-humoradas e verdadeiras como essa do genial ator cômico norte-americano Bob Hope, falecido pouco tempo após ter completado um século de vida: “Minha concepção do Natal, seja ele à moda antiga ou moderna, é algo bastante simples: amar uns aos outros. Mas, pense comigo, por que nós temos que esperar pelo Natal para agir assim?”.

* artigo publicado no jornal "O Estado do Paraná", caderno "Direito e Justiça" de 23.12.2007.