ANO NOVO: É PRECISO SONHAR *
Na chegada do ano novo, Machado de Assis escreveu numa de suas crônicas: “Não me iludis, - dirá 1896 - sei que não me amais desinteressadamente; egoístas eternos quereis que eu vos dê saúde e dinheiro, festas, amores, votos e o mais que não cabe neste pequeno discurso. Direis mal de 1895, vós que o adulastes do mesmo modo quando ele apareceu; direis o mesmo mal de mim, quando vier o meu sucessor” (A Semana, 5 de janeiro de 1896).
Mudando a referência do imortal acadêmico, procuro esquecer muitos registros de 2006 diante do óbvio: não se pode mudar o passado. Prefiro ficar com a verdade poética de Camões: “De que serve às pessoas o lembrar-se / Do que se passou já, pois tudo passa, / Senão de entristecer-se e magoar-se?”. Portanto, salve o presente e viva o futuro.
Uma das generosas mensagens que recebi pela chegada do ano bom veio do amigo Eugenio Raúl Zaffaroni. O notável mestre argentino fala sobre a necessidade de sonhar e lembra que as grandes realizações começaram pelo sonho. Nada e ninguém nos devem afastar das utopias. “Todo puede embargarse, menos los sueños”, arremata.
O maior penalista vivo da América Latina sabe o que diz. O sonho é a força abstrata da esperança que tem o poder de tornar concretas as utopias do homem sobre o do mundo e da vida.
De todas as liberdades humanas duas delas são fundamentais e merecem figurar nas Constituições de todos os povos: a liberdade de sonhar e a liberdade de não ter medo. Com a primeira é possível imaginar a conquista de bens supremos da vida como a saúde, a segurança e a felicidade; com a segunda é possível superar a angústia da existência e as dores do mundo para enfrentar os atentados contra a fé e a esperança. Pois não foi através do sonho que os gregos inventaram os deuses olímpicos para fugir dos horrores da tragédia? Não é o sonho que veste a realidade com o seu manto de ilusão, permitindo ao ser humano navegar numa quarta dimensão? E não foi a coragem, isto é, a ausência do medo, a mola propulsora e o berço moral das grandes revoluções operadas na religião, na ciência, na arte e na técnica? Também foram sonhadores aqueles que, por alguns momentos, possam ter renegado a sua crença, como aconteceu com Galileu, ao ser obrigado pelo Santo Ofício a abjurar a pretendida heresia de que a terra gira no espaço sobre si mesma (E pur si muove!). Igualmente foram corajosos aqueles que, a exemplo de Joana D´Arc, Danton e Tiradentes, deram a sua vida em troca da esperança de liberdade para o povo.
Em 1985, o Papa João Paulo II divulgou um conjunto de declarações e idéias redigidas de próprio punho (Rapporto sulla fede). Sobre a liberdade de não ter medo assim falou o Sumo Pontífice: “Quando a 22 de outubro de 1978 pronunciei na praça de São Pedro as palavras ‘Não tenham medo!’, não podia ter a consciência de quão longe teriam levado a mim e a Igreja inteira. (...)”
É preciso sonhar; é preciso viver a salvo do medo.
* artigo publicado no jornal "O Estado do Paraná", caderno "Direito e Justiça" de 31.12.2006.